Adaptação às alterações climáticas é a chave para o futuro da agricultura na Europa

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Article Publicado 2019-09-30 Modificado pela última vez 2019-10-11
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As ondas de calor do verão passado e os fenómenos meteorológicos extremos bateram novos recordes climáticos na Europa, reforçando uma vez mais a importância da adaptação às alterações climáticas. Estivemos à conversa com Blaz Kurnik, perito em impactos e adaptação às alterações climáticas da Agência Europeia do Ambiente (AEA), a propósito do novo relatório da AEA, lançado no início deste mês, sobre a forma como as alterações climáticas estão a afetar a agricultura na Europa.

 Image © Kayhan Guc, Sustainably Yours/EEA

O relatório recente da AEA apresenta uma perspetiva pouco animadora para os agricultores europeus. Pode dar-nos mais pormenores?

O relatório «Climate change impacts and adaptation in the agricultural sector in Europe»  (Impactos e adaptação às alterações climáticas no setor agrícola na Europa) analisa a forma como as alterações climáticas afetaram o setor agrícola e apresenta perspetivas para os próximos anos. É evidente que as alterações climáticas previstas afetarão negativamente a agricultura em muitas partes da Europa, especialmente no sul. O relatório aborda parte do setor agrícola, nomeadamente o rendimento das culturas, a pecuária e os produtos de origem animal, e incide nas necessidades de produção de alimentos e forragens. Apresenta igualmente uma panorâmica das potenciais soluções propostas pelas políticas a vários níveis de governação para a adaptação às alterações climáticas, nomeadamente através de programas e da apresentação de várias medidas de adaptação ao nível das explorações agrícolas.

Qual será o impacto das alterações climáticas na agricultura? Que partes da Europa serão as mais afetadas?

As alterações climáticas já afetaram negativamente o setor agrícola na Europa, e tal continuará a acontecer no futuro. As alterações na temperatura e na precipitação, bem como as condições meteorológicas e climáticas extremas, já influenciam o rendimento das culturas e a produtividade pecuária na Europa. Esta situação pode levar ao abandono de terras agrícolas desfavorecidas em partes do sul da Europa.

As condições meteorológicas e climáticas afetam também a disponibilidade da água necessária para a irrigação, as práticas de beberagem dos animais, a transformação de produtos agrícolas e as condições de transporte e armazenagem. As futuras alterações climáticas poderão ter alguns efeitos positivos no setor a curto prazo, devido aos períodos de crescimento mais longos e às condições de cultivo mais adequadas em certas zonas do norte da Europa, mas a escassez de água, as vagas de calor, as fortes precipitações que contribuem para a erosão do solo e outros fenómenos meteorológicos e climáticos extremos deverão resultar em rendimentos agrícolas mais baixos.

Além disso, uma cadeia de impactos das alterações climáticas fora da Europa pode afetar o preço, a quantidade e a qualidade dos produtos e, consequentemente, os padrões comerciais, que, por sua vez, podem afetar os rendimentos agrícolas na Europa.

O setor agrícola é mais vulnerável às alterações climáticas do que outros setores?

Todos os setores económicos foram e serão afetados pelas alterações climáticas. A produção agrícola depende fortemente das condições meteorológicas e climáticas, o que a torna um dos setores mais vulneráveis. As alterações a nível da temperatura e da precipitação, bem como as condições meteorológicas e climáticas extremas, influenciam o rendimento das culturas e a produtividade pecuária e, por sua vez, o rendimento agrícola, causando perdas económicas significativas em muitas regiões europeias.

O que recomenda o relatório, em especial para os agricultores que pretendem garantir a viabilidade e a sustentabilidade das suas explorações?

Existem já muitas oportunidades para aplicar uma grande variedade de medidas existentes a nível das explorações agrícolas que visam melhorar a gestão dos solos e da água, o que pode proporcionar benefícios para a adaptação, a atenuação, o ambiente e a economia. No entanto, em muitos casos, a adaptação ao nível da exploração ainda não se verificou por diversas razões, como a falta de recursos para investimentos, iniciativas políticas de adaptação, capacidade institucional e acesso a conhecimentos de adaptação.

O que fez a União Europeia até à data para ajudar o setor e os agricultores a adaptarem-se?

O setor agrícola da UE é regulado pelas políticas da UE, nomeadamente a política agrícola comum (PAC). A estratégia de adaptação da UE, adotada em 2013 e avaliada em 2018, é um motor fundamental da adaptação a nível da UE. Tanto a estratégia como a PAC permitiram ações de adaptação no setor agrícola. A nova política agrícola comum proposta para 2021-2027 tem a adaptação como objetivo claro, o que poderá levar os Estados-Membros da UE a aumentar o financiamento de medidas de adaptação no setor.

Além disso, os Estados-Membros da UE definiram o setor agrícola como uma prioridade nas suas estratégias nacionais de adaptação ou nos seus planos nacionais de adaptação. Entre as medidas de adaptação típicas a nível nacional ou regional contam-se ações de sensibilização, medidas práticas para reduzir os impactos e riscos de fenómenos meteorológicos extremos, ou estratégias de partilha de riscos, bem como o desenvolvimento e a implementação de infraestruturas de irrigação e de proteção contra inundações.

O que está a AEA a fazer em matéria de adaptação às alterações climáticas?

A AEA apoia o desenvolvimento e a implementação da adaptação às alterações climáticas na Europa, a avaliação das políticas da UE e o desenvolvimento de estratégias a longo prazo para adaptação às alterações climáticas e redução do risco de catástrofes, mediante a disponibilização de informações relevantes. Publicámos vários relatórios sobre adaptação, incluindo a avaliação de impactos das alterações climáticas e vulnerabilidades na Europa, avaliações setoriais sobre a adaptação (energia, transportes e agricultura).

A agência prepara também avaliações das estratégias e planos de ação nacionais, regionais e urbanos em matéria de alterações climáticas. Além disso, a AEA também mantém e gere a Plataforma Europeia para a Adaptação Climática (Climate-ADAPT) com a Comissão Europeia.

Blaz Kurnik

Perito da AEA em matéria de impactos e adaptação às alterações climáticas

Entrevista publicada na edição de setembro de 2019 do Boletim informativo 03/2019 da AEA

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