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Avaliações prospetivas para uma melhor compreensão das perspetivas de sustentabilidade

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Article Publicado 2020-07-21 Modificado pela última vez 2020-08-14
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Photo: © drmakete lab on Unsplash
A Agência Europeia do Ambiente (AEA) publicou recentemente um relatório sobre os «fatores de mudança» com impacto nas perspetivas ambientais e de sustentabilidade na Europa. Entrevistámos o coordenador do relatório, Lorenzo Benini, que trabalha na AEA como especialista em avaliação e sustentabilidade de sistemas.

Qual é o seu papel na AEA e que tipo de trabalho envolve? 

Trabalho nPrograma que desenvolve avaliações ambientais integradas, como o relatório O ambiente na Europa — Estado e perspetivas (SOER). O meu trabalho consiste principalmente em desenvolver avaliações sistémicas que analisam os desafios e as oportunidades para a sustentabilidade na Europa. Trata-se, por exemplo, de analisar as ligações entre os sistemas socioecológicos e sociotécnicos em diferentes escalas, numa perspetiva de futuro, e de reconhecer a presença da incertezas nos nosso conhecimento. 

O que são avaliações prospetivas? 

As avaliações prospetivas da AEA consideram os potenciais futuros desenvolvimentos, por exemplo, em matéria de perspetivas ambientais e de sustentabilidade. Baseiam-se numa combinação de conhecimentos estabelecidos sobre as tendências e dinâmicas passadas, sobre o nosso entendimento das interações entre diferentes fenómenos, assim como sobre a exploração de futuros alternativos. O futuro é sempre incerto e mais ainda no mundo atual, caracterizado por uma volatilidade, complexidade e ambiguidade crescentes. 

O mundo está cada vez mais interligado e os desenvolvimentos que ocorrem numa parte do mundo podem afetar a Europa. Infelizmente, a crise da COVID-19 é um sério aviso disso mesmo.

De qualquer modo, podem imaginar-se, discutir-se e procurar-se futuros alternativos. Isto significa que há que utilizar um conjunto de estudos prospetivos quantitativos e qualitativos e promover o envolvimento de várias partes interessadas para desenvolver conhecimentos que possam apoiar ações políticas a favor da sustentabilidade. No nosso caso, fazemos isso através da nossa rede de países membros (Eionet), responsáveis políticos, especialistas de várias disciplinas, cada vez mais, com a sociedade civil. 

O que é que nos diz o recente relatório da AEA? 

O relatório «Fatores de mudança relevantes para o ambiente e a sustentabilidade da Europa» explora uma ampla gama de «fatores» suscetíveis de afetar o futuro da Europa, em particular os que afetam as ambições ambientais e de sustentabilidade da Europa. No geral, o relatório tem por objetivo proporcionar um cenário preciso das mudanças que estão a ocorrer no mundo e na Europa, das suas interligações, bem como das suas eventuais implicações. 

As perspetivas europeias para o ambiente e a sustentabilidade são influenciadas por vários fatores que criam novos riscos e também novas oportunidades. O mundo está cada vez mais interligado e os desenvolvimentos que ocorrem numa parte do mundo podem afetar a Europa. Infelizmente, a crise da COVID-19 é um sério aviso disso mesmo. Embora o papel da Europa na cena global esteja a mudar, a UE tem a oportunidade de se reposicionar perante os próximos desafios ambientais, estratégicos e de sustentabilidade e de procurar as oportunidades que tem pela frente rumo a um futuro mais sustentável. 

O que define os fatores de mudança? 

«Os fatores de mudança» diferem em termos de escalas geográficas e temporais, origem, intensidade e impacto potencial. Por exemplo, as megatendências globais, como o crescimento da população mundial ou as alterações climáticas, são tendências globais a longo prazo que são lentas na sua formação, mas têm um impacto significativo. Algumas tendências estão bem estabelecidas e caracterizam a Europa em particular, por exemplo, o envelhecimento ou a migração de leste para oeste. Outras tendências estão a surgir, mas ainda não estão bem estabelecidas, tais como a convergência tecnológica e a «quarta revolução industrial». Também existem os chamados fatores imprevisíveis que são pouco prováveis, mas constituem desenvolvimentos futuros potencialmente disruptivos. Podem ser grandes avanços tecnológicos, o colapso de polinizadores ou um surto de doenças infeciosas. 

Como vê a evolução de algumas destas tendências? 

Pode dizer-se que os desafios ambientais globais têm aumentado nos últimos 50 anos e que a geografia da poluição está a mudar em todo o mundo, em consequência do crescimento económico, do deslocamento do poder geopolítico e do aumento dos níveis de consumo. Ao mesmo tempo, o mundo está mais interligado do que nunca através dos fluxos dos recursos, das pessoas e da informação, tornando mais difícil assegurar a gestão ambiental global. 

A Europa é cada vez mais dependente de recursos essenciais e, ao mesmo tempo, está a externalizar uma parte significativa das suas pressões ambientais. As novas tecnologias tanto trazem oportunidades como riscos no que respeita à saúde, ao meio ambiente e ao bem-estar. Valores, estilos de vida e abordagens de governação estão a mudar em todo o mundo. Se bem que o consumismo esteja a aumentar, especialmente nos países emergentes, também estão a ser adotadas novas ideias por parte da população e os cidadãos exigem cada vez mais ações relativamente aos desafios ambientais e de sustentabilidade, quer na Europa, quer noutras regiões. 

Como é usada a análise prospetiva na tomada de decisões na UE e a nível nacional? 

No domínio ambiental e da sustentabilidade, os processos prospetivos são muitas vezes utilizados para antecipar potenciais riscos e identificar oportunidades para o avanço das políticas ambientais e de sustentabilidade. Por exemplo, a Comissão Europeia criou um sistema de prospeção (FORENV) que visa identificar as questões ambientais emergentes a fim de explorar as suas implicações potenciais e ajudar os decisores políticos e as partes interessadas a lidar com elas. Exemplos semelhantes encontram-se em todos os países membros da AEA. A prospetiva estratégica também ganhou importância recentemente na elaboração de políticas europeias com a criação do cargo de comissário para as Relações Interinstitucionais e Prospetiva — Vice-Presidente Maroš Šefčovič — e da rede de Prospetiva Estratégica da UE. 

No domínio ambiental e da sustentabilidade, os processos prospetivos são muitas vezes utilizados para antecipar potenciais riscos e identificar oportunidades para o avanço das políticas ambientais e de sustentabilidade.

O que irá fazer a AEA em relação a este tema no futuro próximo? 

A AEA está a contribuir ativamente para o processo do FORENV, juntamente com especialistas em prospetiva dos nossos países membros e centros de referência nacionais para informações e serviços prospetivos (NRC-FLIS). A AEA também está a trabalhar numa série de projetos relacionados com a prospetiva, muitas vezes em parceria com os países membros e outras instituições da UE. Esperamos produzir avaliações sobre as implicações dos fatores de mudança para a agenda de sustentabilidade da Europa, estabelecer um processo de exploração de horizontes para a identificação de tendências emergentes e desenvolver esta base de conhecimentos para a próxima edição do SOER. 

Lorenzo Benini 
Especialista em avaliação e sustentabilidade de sistemas 
Agência Europeia do Ambiente 

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