Para uma sustentabilidade global

Mudar de idioma
Article Publicado 2015-12-14 Modificado pela última vez 2016-09-15 10:50
No passado mês de agosto, mais de 190 países chegaram a um consenso sobre a Agenda de Desenvolvimento Sustentável 2030 das Nações Unidas e, no final do mês em curso, os Chefes de Estado, reunidos em Nova Iorque, irão adotá-la, juntamente com os seus objetivos e metas de desenvolvimento sustentável. Ao contrário dos seus antecessores, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) visam tanto os países em desenvolvimento como os países desenvolvidos e abarcam uma maior diversidade de temas relativos ao desenvolvimento sustentável. Muitos dos dezassete ODS incluem elementos relacionados com o ambiente, a utilização dos recursos e as alterações climáticas.

 Image © Leyla Emektar, Picture2050 /EEA

É animador constatar este compromisso global e mais vasto para com a sustentabilidade. Reconhecer que o desenvolvimento sustentável é simultaneamente um desafio e uma necessidade tanto para os países em desenvolvimento como para os desenvolvidos, constitui, certamente, um passo na direção certa.

Neste contexto, o objetivo global do 7.º Programa de Ação em Matéria de Ambiente da União Europeia — «Em 2050, viver bem, dentro dos limites ecológicos do planeta» — está em consonância com os ODS. Na União Europeia, foi adotado um número significativo de medidas para atingir este objetivo, mas a natureza global da nossa economia e do nosso ambiente torna mais difícil que os países ou grupos de países (como a UE) resolvam sozinhos os problemas ambientais. Por exemplo, independentemente do local onde são libertadas, as emissões de gases com efeito de estufa contribuem para as concentrações atmosféricas a nível mundial, produzindo impactos longe da sua fonte, e que podem perdurar até um futuro longínquo.

Se não fizermos um esforço e uma transição globais para a verdadeira sustentabilidade, poderemos comprometer o bem-estar e a qualidade de vida em todo o planeta. O nosso relatório «O Ambiente na Europa: Estado e perspetivas 2015» (SOER 2015) demonstra que os atuais padrões de produção e consumo melhoram a nossa qualidade de vida — ao mesmo tempo que, paradoxalmente, a põem em risco.

Próximo dos limites

O SOER 2015 alerta também para os indícios de que as nossas economias se estão a aproximar dos limites ecológicos em que se inserem, e que já estamos a sentir alguns efeitos das limitações de recursos físicos e ambientais. As estimativas disponíveis sugerem que o consumo total mundial excede em mais de 50 % a capacidade de regeneração do planeta, ou seja, consumimos mais do que este pode produzir num dado período sem enfraquecer a sua capacidade de produção.

Algumas megatendências globais suscitam ainda outra preocupação. Atualmente, menos de 2 mil milhões dos 7 mil milhões de habitantes do planeta são considerados consumidores da classe média. Em 2050, prevê-se que a população mundial atinja 9 mil milhões de habitantes e que mais de 5 mil milhões pertençam à classe média: um crescimento que poderá intensificar a concorrência global pelos recursos e sujeitar os ecossistemas a exigências suplementares.

A utilização de materiais à escala global poderá duplicar até 2030 e as previsões indicam que a procura mundial de energia aumentará 30 % a 40 % nos próximos 20 anos. Do mesmo modo, a procura total de alimentos para consumo humano, alimentos para animais e fibras deverá crescer cerca de 60 % entre o momento presente e 2050.

A crescente escassez de recursos e o aumento da concorrência suscitam preocupações quanto à segurança do acesso a recursos essenciais. As preocupações cada vez maiores acerca da segurança alimentar, do abastecimento de água e do aprovisionamento de energia têm conduzido, nos últimos 5–10 anos, a aquisições transnacionais de terras, sobretudo nos países em desenvolvimento.

A Europa e a sustentabilidade global

A União Europeia tem uma importante intervenção na economia mundial como produtor e consumidor. Presentemente, a «pegada ecológica» da maioria dos países europeus é superior à área biologicamente produtiva de que dispõem, a sua «biocapacidade». Além disso, devido ao comércio da UE com o resto do mundo, grande parte das pressões ambientais associadas ao consumo dentro do território da União fazem-se sentir fora deste. Saliente-se ainda que a percentagem da pegada ambiental provocada pela procura da UE no exterior das suas fronteiras aumentou na última década, tanto em termos de utilização de terra, água e materiais, como de emissões atmosféricas.

Nos últimos anos, as questões ambientais globais têm sido articuladas em torno de conceitos como pontos de rotura, limites e défices. Esta formulação ainda não foi transposta para as sociedades, as economias, os sistemas financeiros, as ideologias políticas e os sistemas de conhecimento, por enquanto alheios à ideia de fronteiras ou limites planetários. Porém, o nosso planeta tem quantidades limitadas de recursos fundamentais, nomeadamente de água e de terra.

Num sistema económico globalizado, com recursos limitados e confrontado com uma procura e degradação do ambiente que não cessam de aumentar à escala mundial, a única opção viável é uma economia verde, que utilize os recursos de forma eficiente. A transição para uma economia verde exige-nos que alteremos radicalmente o modo como produzimos e consumimos bens e serviços, construímos cidades, transportamos pessoas e bens, produzimos alimentos, etc.

As políticas destinadas a tornar a economia mais ecológica não têm de ser obrigatoriamente encaradas como obstáculos ou fatores de agravamento dos custos: pelo contrário, podem ser transformadas em oportunidades. Muitos setores económicos europeus conseguiram reduzir a procura de materiais e as emissões, ou dissociar o crescimento económico destas últimas. Por exemplo, o setor industrial ligado ao ambiente cresceu mais de 50 % entre 2000 e 2011, sendo um dos poucos setores económicos da UE que se expandiu desde a crise financeira de 2008.

Do mesmo modo, o crescimento da população e o aumento da concorrência pelos recursos também podem ser encarados como forças suscetíveis de induzir as mudanças sistémicas de que necessitamos. Para nos adaptarmos, podemos começar por construir, em todo o mundo, cidades bem ordenadas territorialmente e dotadas de sistemas essenciais, como os de energia, mobilidade e transporte, que não pressionem o capital natural e produzam a mínima quantidade possível de emissões de carbono e de resíduos.

Hans Bruyninckx
Diretor Executivo da AEA

Editorial publicado no n.º 2015/3 do Boletim informativo da AEA, setembro de 2015

Conteúdo relacionado

Geographic coverage

Albania, Armenia, Austria, Azerbaijan, Belarus, Belgium, Bosnia and Herzegovina, Bulgaria, Croatia, Cyprus, Czech Republic, Denmark, Estonia, Finland, France, Georgia, Germany, Greece, Hungary, Iceland, Ireland, Italy, Kazakhstan, Kosovo, Kyrgyzstan, Latvia, Liechtenstein, Lithuania, Luxembourg, Macedonia, Malta, Moldova, Monaco, Montenegro, Netherlands, Norway, Poland, Portugal, Romania, Russia, San Marino, Serbia, Slovakia, Slovenia, Spain, Sweden, Switzerland, Tajikistan, Turkey, Turkmenistan, Ukraine, United Kingdom, Uzbekistan
Ações do documento
Agência Europeia do Ambiente (EEA)
Kongens Nytorv 6
1050 Copenhagen K
Dinamarca
Telefone: +45 3336 7100