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A poluição sonora é um grave problema, tanto para a saúde humana como para o ambiente

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Article Publicado 2020-04-07 Modificado pela última vez 2020-06-08
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A poluição sonora é um problema crescente em toda a Europa e de cujos impactos na saúde muitas pessoas podem não ter consciência. Conversámos com Eulalia Peris, especialista em ruído ambiental da Agência Europeia do Ambiente, para debater as principais conclusões do relatório da AEA Environmental noise in Europe — 2020 (O ruído ambiental na Europa - 2020), publicado no início do mês.


Quais são as principais conclusões do segundo relatório sobre o ruído ambiental publicado pela AEA?

O relatório mostra que o ruído ambiental e, muito particularmente, o ruído do tráfego rodoviário, continua a ser um grave problema ambiental que afeta a saúde e o bem-estar de milhões de europeus. Vinte por cento da população europeia está exposta a níveis de ruído prolongados que são nocivos para a sua saúde. Isto corresponde a mais de 100 milhões de pessoas em toda a Europa. Os dados indicam igualmente que os objetivos políticos em matéria de ruído ambiental não foram alcançados. De facto, com base nas nossas projeções, é pouco provável que o número de pessoas expostas ao ruído diminua significativamente no futuro devido ao crescimento urbano e ao aumento da procura de mobilidade.

Quais são concretamente os impactos na saúde? Qual é a dimensão do problema da poluição sonora em comparação com a poluição atmosférica, por exemplo?

A exposição prolongada ao ruído pode ter efeitos de natureza diversa sobre a saúde como, por exemplo, incómodo, perturbações do sono, efeitos negativos no sistema cardiovascular e no sistema metabólico, bem como deficiência cognitiva nas crianças. Analisando os dados atuais, estimamos que o ruído ambiental contribua para 48 000 novos casos de doença cardíaca isquémica por ano, bem como para 12 000 mortes prematuras. Estimamos ainda que 22 milhões de pessoas sofram de um elevado nível de incómodo crónico e que 6,5 milhões de pessoas sofram de perturbações do sono crónicas. Em resultado do ruído do tráfego aéreo, estimamos que 12 500 crianças em idade escolar tenham dificuldades de leitura.

Muitas pessoas não se apercebem de que a poluição é um problema importante que tem um impacto na saúde humana, incluindo na dessas mesmas pessoas. É certo que há muitas mais mortes prematuras associadas à poluição atmosférica do que ao ruído. No entanto, o ruído parece ter um impacto maior nos indicadores relacionados com a qualidade de vida e a saúde mental. Efetivamente, segundo conclusões da Organização Mundial da Saúde (OMS), o ruído constitui a segunda maior causa ambiental de problemas de saúde, logo a seguir ao impacto da poluição atmosférica (partículas em suspensão).

O relatório também identifica problemas com a aplicação da Diretiva da UE relativa ao ruído ambiente. Quais são esses problemas?

Em alguns países, falta ainda uma elevada percentagem de dados no que se refere a mapas de ruído e a planos de ação. Não é possível avaliar devidamente os problemas de ruído e resolvê-los se os países, as regiões e as cidades não elaborarem os mapas de ruído ou os planos de ação exigidos ao abrigo da diretiva.

Como participa a AEA no esforço para garantir a sensibilização dos decisores políticos e do público para a questão da poluição sonora?

A AEA é responsável pela recolha de todas as informações apresentadas pelos países ao abrigo da Diretiva Ruído Ambiente. O estado atual dos conhecimentos sobre as fontes de ruído e a exposição da população na Europa baseia-se, em grande medida, nesta base de dados. Produzimos vários relatórios e avaliações com base nestes dados. Estes trabalhos ajudam a acompanhar os progressos realizados no cumprimento dos objetivos em matéria de poluição sonora e podem também contribuir para informar o desenvolvimento de futuros programas de ação em matéria de ambiente. Além do relatório sobre ruído ambiental na Europa recentemente publicado, podemos referir relatórios anteriores sobre ruído elaborados pela AEA, nomeadamenteQuiet areas in Europe — The environment unaffected by noise pollution(Zonas tranquilas na Europa — O ambiente não perturbado pela poluição sonora), de 2016, e Unequal exposure and unequal impacts: Social vulnerability to air pollution, noise and extreme temperatures in Europe(Exposição desigual e impactos desiguais: Vulnerabilidade social à poluição atmosférica, ao ruído e a temperaturas extremas na Europa), publicado em 2018. As pessoas também podem aceder à informação sobre poluição sonora no visualizador sobre ruído ou nas fichas informativas por país sobre o tema da AEA.

Que mais está a UE a fazer para combater o problema?

Os países, as regiões e as cidades estão a adotar diversas medidas para combater os problemas do ruído. Alguns exemplos são a pavimentação de estradas com asfalto de baixo ruído, o uso de pneus silenciosos em veículos de transporte público, a criação de mais infraestruturas para veículos elétricos nas cidades, a promoção da mobilidade ativa como as deslocações a pé ou de bicicleta, a pedonização de ruas, etc. Um número significativo de cidades e regiões criou também as chamadas zonas tranquilas onde as pessoas se podem refugiar do ruído da cidade. Trata-se, na sua maioria, de espaços verdes, como parques ou reservas naturais.

Muitas destas medidas revelaram-se também benéficas para a redução da poluição atmosférica. Consideramos que uma forma de aumentar o impacto das medidas de atenuação do ruído, otimizando simultaneamente os custos e os esforços, poderia ser a conceção de estratégias combinadas de atenuação do ruído e da poluição atmosférica causados pelo tráfego. Se não forem implementadas medidas para resolver o problema do ruído, é pouco provável que o número de pessoas expostas ao ruído diminua significativamente no futuro, devido ao crescimento urbano e ao aumento da procura de mobilidade. Uma redução significativa do número de pessoas expostas a níveis nocivos de ruído será mais facilmente conseguida através da adoção não apenas de medidas individuais, mas também de uma combinação de diferentes medidas, incluindo melhorias tecnológicas, políticas ambiciosas em matéria de ruído, melhor planeamento urbano e de infraestruturas, bem como mudanças de comportamentos.

Eulalia Peris

Especialista em ruído ambiental da AEA

Entrevista publicada no número de março de 2020 daNewsletter 01/2020 da AEA

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