As alterações climáticas e as cidades

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Article Publicado 2015-09-24 Modificado pela última vez 2016-09-15 10:50
Atualmente, os europeus vivem maioritariamente nas cidades e, por isso, as escolhas que fizermos em matéria de infraestruturas urbanas influenciarão grandemente a nossa capacidade de resistência às alterações climáticas. Chuvas mais frequentes, inundações e ondas de calor serão alguns dos desafios com que as cidades europeias serão provavelmente confrontadas em consequência dessas alterações. Perguntámos a Holger Robrecht, Diretor Regional adjunto do ICLEI, que medidas estão as cidades a adotar para se adaptarem às alterações climáticas.

Que efeitos produzirão as alterações climáticas nas cidades?

As alterações climáticas terão múltiplos efeitos sobre as cidades. O mais provável, na Europa, é um aumento dos fenómenos meteorológicos extremos, como inundações, tempestades e ondas de calor. Esse aumento poderá danificar gravemente as infraestruturas urbanas, designadamente os sistemas de transportes, as redes de esgotos e até os sistemas de distribuição de alimentos. O maior perigo no caso de chuvas torrenciais e inundações é as nossas redes de drenagem e esgotos não conseguirem suportar o seu volume. Foi o caso da tempestade que, em 2011, assolou a cidade de Copenhaga, e que constitui um bom exemplo de perturbação causada por chuvas torrenciais, inundando casas e danificando linhas de comboio, estradas e a rede de metro. As chuvas torrenciais também podem provocar deslizamentos de terras nas montanhas e colinas situadas no exterior das cidades, os quais levam ao corte de estradas, dificultando a distribuição de alimentos e outros bens, como já aconteceu nas Filipinas e na Itália, na região da Ligúria, nos arredores de Génova.

As alterações climáticas não só exercem pressão sobre infraestruturas «pesadas», como as estradas, casas e as redes de esgotos, mas também sobre infraestruturas «leves», como os nossos sistemas de saúde. Esta pressão é muito evidente em fenómenos como as ondas de calor, que são outro problema para as zonas urbanas. As cidades criam «ilhas de calor», que são muito mais quentes do que as zonas rurais, e nelas o risco de mortalidade é particularmente grande para os idosos, criando um novo tipo de desafio para os sistemas de saúde.

Como estão as cidades a adaptar-se ao desafio das alterações climáticas?

Muitas cidades europeias possuem planos de adaptação avançados, como é o caso de Londres, Copenhaga, Bratislava e Almada, em Portugal. Se tivesse de mencionar apenas três, seriam os de Roterdão, Ghent e Bolonha. As cidades de Roterdão e Ghent estabeleceram parcerias com instituições de investigação para avaliar os locais dessas cidades que mais aqueceriam em caso de ondas de calor. Decidiram colocar termómetros em vários sítios, instalando até termómetros móveis nos carros elétricos, para detetarem os locais onde o efeito de ilha de calor se fazia sentir mais fortemente. Deste modo, foi possível tomar medidas corretivas, como a plantação de árvores, para reduzir os efeitos de algumas dessas ilhas de calor.

Bolonha adotou uma abordagem muito diferente. Trata-se de uma antiga cidade medieval ameaçada pelas cheias do rio Pó, mas que também é afetada por chuvas torrenciais e ondas de calor, implicando um triplo desafio. A câmara municipal de Bolonha criou uma aplicação de telemóvel através da qual os cidadãos detetam e comunicam qualquer tipo de danos que as chuvas torrenciais ou as ondas de calor causem na cidade, além de permitir que façam sugestões sobre a forma de preparar a cidade para ocorrências futuras. Esta aplicação fazia parte do plano de adaptação «Blue AP» de Bolonha e foi financiado pela UE.

A adaptação às alterações climáticas é uma prioridade política da Europa?

Sim. Nos últimos anos, a adaptação às alterações climáticas adquiriu grande importância em virtude das muitas zonas da Europa que, na década passada, foram afetadas por fenómenos extremos delas resultantes. Além disso, os efeitos desses fenómenos foram, com frequência, muito piores do que alguém teria previsto dez anos antes. Por exemplo, em 2010 o ciclone Xynthia inundou muitas zonas do litoral francês e deixou quase um milhão de pessoas sem eletricidade. No ano passado, a Croácia e a Sérvia sofreram grandes inundações devido às chuvas torrenciais e, no início de junho do ano passado, uma prolongada onda de calor foi seguida de chuvas torrenciais que atingiram a Bélgica, os Países Baixos e o Luxemburgo.

Essa tempestade progrediu depois para o Ruhr, provocando danos e inundações entre Dusseldorf e Dortmund. As ondas de calor constituem outro grande desafio para a Europa, tendo-se registado verões particularmente quentes em 2013 e 2014. Estas ocorrências sensibilizaram os governos e as autarquias para a necessidade de adaptação às alterações climáticas.

Quais são os maiores desafios que as autarquias enfrentam na resolução dos problemas causados pelas alterações climáticas?

As cidades estão confrontadas com vários desafios em matéria de adaptação às alterações climáticas e a falta de conhecimento talvez seja o maior de todos. Muitas câmaras municipais não sabem como as suas cidades serão afetadas, e aquelas que desejam preparar-se, desconhecem com frequência as medidas a tomar, ou o modo como devem organizar a sua resposta. Além disso, muitas delas desconhecem que, em toda a Europa, há financiamento e aconselhamento ao seu dispor.

Estas dificuldades estão agora a ser resolvidas. Alguns governos nacionais têm programas para ajudar as suas câmaras municipais a elaborar planos de adaptação, como é o caso do programa UKCIP, do Governo do Reino Unido, e do programa KomPass, do Governo alemão. A nível da União já existe uma Estratégia de adaptação às alterações climáticas e foi criado o sítio Web Climate-ADAPT, gerido pela Agência Europeia do Ambiente, que auxilia os governos municipais, regionais e nacionais a obterem informações sobre a adaptação às alterações climáticas. Além disso, existe uma organização a nível europeu especificamente criada para auxiliar as autarquias: a Mayors Adapt.

No ICLEI organizamos conferências como a Conferência de Bona sobre cidades resilientes e — em conjunto com a Agência Europeia do Ambiente — a jornada europeia de portas abertas para apoiar o diálogo entre profissionais das autarquias. Também prestamos às autarquias serviços diretamente relacionados com o clima.

Por último, há fundos disponíveis: a União Europeia reservou 20 % do seu orçamento para ajudar as cidades e os países a prevenirem — e a adaptarem-se às — alterações climáticas, mas muitas autarquias desconhecem a sua existência.

Um dos desafios de natureza prática que as cidades enfrentam é a organização da sua resposta aos vários níveis administrativos, pois a adaptação às alterações climáticas exige que se estabeleçam ligações entre as fronteiras administrativas. Por exemplo, quando os rios atravessam diversas cidades, a responsabilidade pela gestão da água num dos seus troços urbanos pode nem sequer pertencer à autarquia em questão e as coisas ainda são mais complicadas no caso de rios como o Reno e o Danúbio, que atravessam vários países. Assim, a proteção contra as cheias destes rios exige que as cidades experimentem novos tipos de governação entre as cidades e os países. No caso do rio Reno, a Suíça,a França, a Alemanha e os Países Baixos juntaram-se para planear áreas de retenção das águas das cheias, uma forma de planeamento que as cidades e os países terão de adotar muito mais intensamente, no futuro, para se adaptarem às alterações climáticas.

Holger Robrecht
Diretor Regional adjunto do ICLEI

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