O mar e as alterações climáticas

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Article Publicado 2015-09-24 Modificado pela última vez 2016-07-11 16:00
As alterações climáticas estão a aquecer os oceanos, causando acidificação do ambiente marinho e alterando os padrões de precipitação. Esta conjugação de fatores exacerba frequentemente os impactes de outras pressões humanas sobre o mar, conduzindo à perda de biodiversidade marinha. A subsistência de muitas pessoas depende da biodiversidade e dos ecossistemas marinhos, por isso urge tomar medidas para limitar o aquecimento dos oceanos.

 Image © Dimitris Poursanidis, Environment & Me/EEA

Alterações na cadeia alimentar marinha

Os oceanos absorvem o calor da atmosfera. Medições recentes mostram que, nas últimas décadas, o aquecimento dos oceanos afetou camadas de água situadas muito abaixo da superfície. Este aquecimento exerce fortes efeitos na vida marinha e ameaça ainda mais a biodiversidade. Não há melhor exemplo desta situação do que o caso do plâncton de águas quentes no Atlântico Nordeste. Alguns copépodes estão a deslocar-se para norte a um ritmo de 200-250 km por década. Trata-se de pequenos copépodes que estão quase na base da cadeia alimentar e de que se alimentam os peixes e outros animais do Atlântico Nordeste, cujo padrão de distribuição nos oceanos pode mudar devido à sua deslocação para norte.

Os animais sujeitos a temperaturas que lhes são menos propícias gastam mais energia a respirar, em detrimento das suas outras funções. Ficam, por isso, mais fracos e vulneráveis a doenças, o que confere uma vantagem competitiva a outras espécies mais adaptadas às novas temperaturas. Além disso, os esporos, os ovos ou a progénie destes animais terão dificuldade em desenvolverse nessas temperaturas. O sofrimento de algumas espécies nas novas condições poderá repercutir-se noutros organismos que delas dependem ou com elas interagem e esta sucessão de acontecimentos acaba por influenciar o funcionamento global do ecossistema, podendo conduzir à perda de biodiversidade. É precisamente isso que está a acontecer com os copépodes: dado que servem de alimento a muitos outros organismos, o seu sofrimento influencia toda a cadeia alimentar.

Nas camadas superiores dessa cadeia, os animais que não conseguem encontrar alimento são obrigados a migrar para sobreviverem. Na Europa, onde a temperatura da superfície do mar está a aumentar mais rapidamente do que nos oceanos à escala global, a migração faz-se principalmente para norte. Este fenómeno pode afetar as populações de peixes, como mostram os prolongados períodos que as sardas começaram a passar em águas mais setentrionais, com repercussões não só para os pescadores locais mas também para comunidades mais longínquas. Uma dessas repercussões foi a famigerada «guerra da sarda» entre a UE e as Ilhas Faroe. Este conflito foi, em parte, desencadeado pela sobrepesca de verdinho e, em parte, resultante da deslocação para norte de espécies de peixes como o arenque e a sarda, devido à subida das temperaturas da água do mar. O tempo adicional passado pelas populações de peixes nas águas faroenses esteve na origem de um litígio sobre direitos de pesca. Os faroenses entendiam que lhes assistia o direito de pescarem nas suas próprias águas, mas na perspetiva da UE os acordos sobre quotas de pesca sustentáveis estavam a ser violados, tendo como consequência um risco de sobrepesca, com perda de rendimentos e postos de trabalho na União. O litígio terminou em 2014, com a revogação pela UE das proibições de importação de peixe capturado em águas faroenses e a cessação da pesca em causa pelos habitantes das ilhas.

Acidificação

Além de absorverem calor, os oceanos também constituem um sumidouro de dióxido de carbono (CO2). Quanto maior for a quantidade de CO2 libertado na atmosfera, maior é a quantidade absorvida pelos oceanos, onde ele reage com a água e produz ácido carbónico, um fator de acidificação. Os oceanos absorveram mais de um quarto do dióxido de carbono emitido para a atmosfera devido às atividades humanas, desde 1750.

Historicamente, a acidificação dos oceanos esteve associada a cada um dos cinco principais eventos de extinção ocorridos no planeta. Na atualidade, o seu ritmo é 100 vezes mais rápido do que em qualquer outro período dos últimos 55 milhões de anos e é possível que as espécies não consigam adaptar-se com a rapidez suficiente.

A acidificação afeta a vida marinha de diversas formas. Por exemplo, os corais, os moluscos, as ostras e outros organismos marinhos que formam conchas de carbonato de cálcio têm mais dificuldade em formar conchas ou material do esqueleto à medida que diminui o pH da água do mar. Assim, a diminuição de pH resultante da ação humana pode afetar ecossistemas marinhos inteiros.

Zonas mortas

O aumento da temperatura dos oceanos também acelera o metabolismo dos organismos e o seu consumo de oxigénio, o qual, por sua vez, reduz as concentrações de oxigénio na água. Este processo pode tornar algumas partes do oceano inabitáveis para a vida marinha.

Os nutrientes que entram nas águas do mar também podem esgotar o oxigénio nele existente. Por exemplo, a chuva arrasta para o mar os nutrientes dos adubos utilizados na agricultura. O enriquecimento em nutrientes, como os nitratos e os fosfatos, pode ocorrer naturalmente, mas cerca de 80 % dos nutrientes presentes no mar resultam de atividades realizadas em terra, incluindo águas residuais, resíduos industriais, resíduos urbanos e escorrências agrícolas. O resto provém sobretudo dos gases nitrosos emitidos pela queima de combustíveis fósseis nos sectores dos transportes, da indústria, da produção de eletricidade e do aquecimento. Nas regiões da Europa onde as alterações climáticas aumentam a precipitação e a temperatura, os efeitos do enriquecimento em nutrientes são ainda maiores.

O enriquecimento das águas com nutrientes desencadeia o chamado processo de «eutrofização», que provoca um crescimento excessivo das plantas. Quando este acontece no mar, gera proliferações de algas e, devido à respiração excedentária, morte e apodrecimento dessas plantas aquáticas, o oxigénio é removido da água, causando défice de oxigénio e zonas hipóxicas ou «zonas mortas» onde a vida aeróbica não consegue sobreviver.

Essas zonas mortas são visíveis em mares semifechados da Europa como o mar Báltico e o mar Negro. A temperatura da água no mar Báltico aumentou cerca de 2°C no último século, o que contribuiu para aumentar a dimensão de zonas mortas, bem como a ocorrência dessas zonas à escala global que duplicou em todas as décadas, desde meados do século passado. Infelizmente, mesmo que se pusesse termo hoje às emissões de nutrientes para os mares europeus, a herança das emissões passadas continuaria a gerar zonas mortas nas próximas décadas, até os mares conseguirem voltar ao estado inicial.

Um futuro incerto

Embora alguns modelos analisem os possíveis cenários das alterações climáticas, é difícil prever como as espécies marinhas se comportarão à medida que as pressões exercidas sobre os oceanos forem aumentando. Sabemos, todavia, que devemos tomar agora medidas para atenuar as alterações climáticas, a fim de limitar o aquecimento e a acidificação dos oceanos, bem como os seus efeitos sobre o ambiente e o nosso bem-estar.

As alterações climáticas estão a aquecer os oceanos, causando acidificação do ambiente marinho e mudando os padrões de precipitação. Esta combinação de fatores agrava, muitas vezes, os efeitos de outras pressões humanas sobre o mar, conduzindo à perda de biodiversidade nos oceanos.

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