A agricultura e as alterações climáticas

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Article Publicado 2015-09-24 Modificado pela última vez 2016-07-11 15:55
A agricultura contribui para as alterações climáticas e é afetada por estas. É necessário que a UE reduza as suas emissões de gases com efeito de estufa provenientes da agricultura e adapte o seu sistema de produção alimentar para fazer face às alterações climáticas. Porém, as alterações climáticas apenas constituem uma das muitas pressões a que a agricultura está sujeita. Perante o crescimento da procura e da competição pelos recursos, a produção e o consumo de alimentos na UE têm de ser inseridos num contexto mais vasto, interligando agricultura, energia e segurança alimentar.

 Image © Javier Arcenillas, Environment & Me/EEA

A alimentação é uma necessidade humana básica, e uma dieta saudável é essencial para a nossa saúde e o nosso bem-estar. Ao longo do tempo, foi-se desenvolvendo um sistema de produção e distribuição complexo e cada vez mais globalizado para responder à nossa necessidade de alimentos e de sabores diferentes. No mundo atual, um peixe capturado no Atlântico pode ser servido poucos dias depois num restaurante de Praga, acompanhado de arroz importado da Índia, enquanto os produtos alimentares europeus são vendidos e consumidos no resto do mundo.

A agricultura contribui para as alterações climáticas

Antes de chegarem ao nosso prato, os alimentos são produzidos, armazenados, transformados, embalados, transportados, preparados e servidos. Em cada uma destas etapas, são emitidos gases com efeito de estufa para a atmosfera. A agricultura, em especial, liberta quantidades significativas de metano e de óxido nitroso, dois potentes gases com efeito de estufa. O metano é produzido pelo gado durante a digestão, devido à fermentação entérica, e libertado por eructação, também podendo libertar-se do estrume armazenado e dos resíduos orgânicos depositados em aterros. As emissões de óxido nitroso constituem um produto indireto dos adubos azotados orgânicos e minerais.

A agricultura foi responsável por 10 % das emissões totais de gases com efeito de estufa da UE em 2012. A diminuição significativa do número de animais, a aplicação mais eficiente dos adubos e a melhor gestão do estrume reduziram em 24 % as emissões do sector agrícola da UE entre 1990 e 2012.

Contudo, no resto do mundo, a agricultura está a seguir o caminho oposto: entre 2001 e 2011, as emissões globais da produção agrícola e pecuária aumentaram 14 %. Este aumento verificou-se principalmente nos países em desenvolvimento, devido ao crescimento da produção agrícola total, suscitado pela maior procura mundial de alimentos, e à alteração dos padrões de consumo alimentar resultantes do aumento dos rendimentos em alguns desses países. As emissões provenientes da fermentação entérica aumentaram 11 % neste período e foram responsáveis por 39 % da produção total de gases com efeito de estufa do sector, em 2011.

Tendo em conta a importância fulcral da alimentação na nossa vida, continua a ser muito difícil reduzir as emissões de gases com efeito de estufa da agricultura, mas é possível reduzir as emissões ligadas à produção alimentar na União Europeia. Uma melhor integração nos métodos de produção de técnicas inovadoras como a captura de metano do estrume, uma utilização mais eficiente dos adubos e uma maior eficiência na produção de carne e laticínios (ou seja, a redução das emissões por alimento produzido), podem contribuir para a realização deste objetivo.

Além desses ganhos de eficiência, uma alteração dos padrões de consumo poderia ajudar a diminuir as emissões de gases com efeito de estufa relacionadas com a alimentação. De um modo geral, a carne e os lacticínios são os produtos alimentares com maior «pegada» global de carbono, matériasprimas e água por quilograma. No que respeita às emissões de gases com efeito de estufa, as produções pecuária e forrageira geram, cada uma delas, mais de 3 mil milhões de toneladas de equivalente-CO2. O transporte e a transformação dos alimentos, após a sua saída da exploração agrícola, correspondem a uma fração diminuta das emissões com eles relacionadas. Se reduzirmos o desperdício de alimentos e o consumo de produtos que geram mais emissões, contribuiremos para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa no sector da agricultura.

As alterações climáticas afetam a agricultura

Para crescerem, as culturas necessitam de solo, água, luz solar e calor apropriados. As temperaturas do ar mais elevadas já afetaram a duração do período de cultivo em grandes partes da Europa e as datas de floração e colheita dos cereais ocorrem vários dias mais cedo, prevendo-se que estas mudanças continuem em muitas regiões.

Em geral, a produtividade agrícola do norte da Europa poderá aumentar graças ao período de cultivo mais prolongado e à menor ocorrência de geada. Além disso, as temperaturas mais quentes e os períodos de cultivo mais longos permitirão cultivar novas culturas. No sul da Europa, porém, as ondas de calor e a redução da precipitação e da água disponível são suscetíveis de prejudicar a produtividade das culturas sendo igualmente previsível uma maior variação anual do seu rendimento devido a fenómenos meteorológicos extremos e a outros fatores, como as pragas e as doenças.

Em certas zonas da região mediterrânica, algumas culturas estivais poderão passar a ser cultivadas no inverno, devido ao calor extremo e ao stresse hídrico nos meses de verão. Noutras zonas, como o oeste da França e o sudeste da Europa, prevê-se uma redução do rendimento das culturas devido aos verões quentes e secos e à impossibilidade de transferir a produção para o inverno.

A alteração das temperaturas e dos períodos de cultivo também pode influenciar a proliferação e a propagação de algumas espécies, nomeadamente insetos, de ervas daninhas invasivas ou de doenças, que por sua vez poderão afetar o rendimento das culturas. As potenciais perdas poderão ser, em parte, compensadas por práticas agrícolas como a rotação de culturas em função da disponibilidade de água, o ajustamento das datas das sementeiras à temperatura e aos padrões de precipitação e a utilização de variedades mais adequadas às novas condições (por exemplo, culturas resistentes ao calor e à seca).

As fontes terrestres de alimentos não são as únicas afetadas pelas alterações climáticas. A distribuição de algumas populações de peixes já mudou no Atlântico Nordeste, atingindo as comunidades que delas dependem, nos vários segmentos da cadeia alimentar. Além do acréscimo do transporte marítimo, as temperaturas mais elevadas da água podem facilitar a implantação de espécies marinhas invasivas que aniquilam as populações de peixes locais.

Há fundos da UE disponíveis, nomeadamente o Fundo Europeu Agrícola de Desenvolvimento Rural, a Política Agrícola Comum (PAC) e os empréstimos do Banco Europeu de Investimento, para ajudar os agricultores e as comunidades piscatórias a adaptarem-se às alterações climáticas. No âmbito da PAC, também existem outros fundos destinados a medidas de redução das emissões de gases com efeito de estufa das atividades agrícolas.

Mercado global, procura global, aquecimento global...

Considerando o crescimento demográfico previsto e a alteração dos hábitos alimentares no sentido de um maior consumo de carne, a procura mundial de alimentos poderá aumentar 70 % nas próximas décadas. A agricultura já é um dos sectores da economia com maior impacto ambiental e, por isso, não surpreende que este aumento substancial da procura gere pressões adicionais. Como poderemos satisfazer a maior procura mundial e, ao mesmo tempo, reduzir os impactes ambientais da produção e do consumo de alimentos na Europa?

Reduzir a quantidade de alimentos produzidos não é uma solução viável. A União Europeia é um dos maiores produtores mundiais de alimentos, produzindo cerca de um oitavo dos cereais, dois terços do vinho, metade da beterraba sacarina e três quartos do azeite produzidos no mundo. Qualquer redução dos produtos de base poria em risco a segurança alimentar da União e do mundo, além de aumentar os preços dos alimentos à escala global, dificultando o acesso de muitas populações a alimentos nutritivos e a preços razoáveis.

Para produzir mais alimentos com as terras já utilizadas na agricultura é muitas vezes necessário intensificar o uso de adubos azotados, que libertam emissões de óxido nitroso e contribuem para as alterações climáticas. A agricultura intensiva e a utilização de adubos também libertam nitratos para o solo e as massas de água.

Apesar de não estarem diretamente ligadas às alterações climáticas, as elevadas concentrações de nutrientes nas massas de água (sobretudo fosfatos e nitratos) causam eutrofização e esta promove a proliferação de algas e esgota o oxigénio da água, com graves consequências para a vida aquática e para a qualidade da água.

Tanto na Europa como no resto do mundo, a afetação de mais terras à agricultura, para responder à procura crescente de alimentos, prejudicaria muito o ambiente e o clima. Na Europa, as zonas mais adequadas à agricultura já estão em grande medida cultivadas e a terra, principalmente as terras agrícolas férteis, é um recurso limitado tanto na Europa como no resto do mundo.

A conversão das zonas florestais em terras agrícolas também não é solução, porque se trata de um processo que gera emissões de gases com efeito de estufa. À semelhança de muitas outras alterações do uso do solo, a desflorestação (que está sobretudo em curso fora da União Europeia) também põe a biodiversidade em risco, comprometendo ainda mais a capacidade da natureza para resistir aos efeitos das alterações climáticas (por exemplo, a absorção das chuvas torrenciais).

Competição na procura

É evidente que o mundo necessitará de produzir mais alimentos e que os principais recursos são limitados. A agricultura produz fortes impactes no ambiente e no clima, e as alterações climáticas afetam — e continuarão a afetar — a quantidade de alimentos produzida e as zonas onde essa produção é possível.

Quem pode produzir, o que pode produzir e onde pode, é uma questão sociopolítica que se tornará mais controversa no futuro. A competição global pelos recursos essenciais, em especial com os impactes iminentes das alterações climáticas, está a levar os países desenvolvidos a comprarem grandes extensões de terras agrícolas nos países menos desenvolvidos. Essa prática e os efeitos das alterações climáticas suscitam questões a respeito da segurança alimentar, principalmente nos países em desenvolvimento. A segurança alimentar não depende apenas da produção de alimentos em quantidade suficiente, mas também do acesso a alimentos com valor nutricional adequado.

Este problema complexo exige uma abordagem política coerente e integrada em matéria de alterações climáticas, energia e segurança alimentar. Face às alterações climáticas e à competição por recursos escassos, o sistema alimentar necessitará de se transformar totalmente e utilizar os recursos de forma muito mais eficiente, continuando simultaneamente a reduzir os seus impactes ambientais, incluindo as emissões de gases com efeito de estufa. Temos de aumentar a produtividade, reduzindo simultaneamente a nossa dependência dos produtos agroquímicos, e diminuir o desperdício alimentar e o consumo de alimentos que exigem muitos recursos e produzem muitos gases com efeito de estufa, como é o caso da carne.

Para isso, há que recordar também o papel fundamental que os agricultores podem desempenhar na manutenção e na gestão da biodiversidade da Europa, além de serem um elemento indispensável da economia rural. Por conseguinte, as medidas políticas para resolver o complexo problema da alimentação e do ambiente devem ter em consideração o impacte ambiental da agricultura e a sua importância socioeconómica para muitas comunidades.

A agricultura contribui para as alterações climáticas e é afetada por estas. É necessário que a UE reduza as suas emissões de gases com efeito de estufa provenientes da agricultura e adapte o seu sistema de produção alimentar para fazer face às alterações climáticas. Perante o crescimento da procura e da competição pelos recursos, a produção e o consumo de alimentos na UE têm de ser inseridos num contexto mais vasto, interligando agricultura, energia e segurança alimentar.

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