A qualidade do ar continua a ser um tema quente para muitos europeus

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Article Publicado 2017-02-01 Modificado pela última vez 2017-02-16 13:33
No último mês, a Agência Europeia do Ambiente (AEA) publicou o seu mais recente relatório «Qualidade do ar na Europa», que mostrou que, embora a qualidade do ar esteja a melhorar lentamente, a poluição do ar continua a ser o maior perigo para a saúde ambiental na Europa. Conversámos com Alberto González Ortiz, um perito em qualidade do ar da AEA, para discutir as conclusões do relatório e a forma como as tecnologias (p. ex., as imagens de satélite) estão a ajudar a melhorar a investigação sobre a qualidade do ar.

© Simeon Lazarov, Environment & Me /EEA

Quais foram as principais conclusões do relatório de 2016?

O relatório deste ano destaca o facto de as concentrações de poluição do ar em toda a Europa continuarem a melhorar lentamente. Contudo, ainda assistimos a efeitos significativos na saúde. A poluição do ar continua a ter como resultado uma diminuição da qualidade de vida devido a doenças. O nosso relatório atualizado também apresenta uma nova estimativa dos impactos dos poluentes atmosféricos mais nocivos na saúde, por exemplo, a exposição a PM2.5 foi responsável por cerca de 467 000 mortes prematuras em 41 países europeus, em 2013.

Os perigos para a saúde decorrentes da poluição do ar são bem conhecidos, graças a organizações como a Organização Mundial da Saúde, e as pessoas na Europa estão cada vez mais cientes de que o problema é grave. Somos expostos à poluição do ar todos os dias. Não a vemos, mas podemos senti-la quando os níveis de poluição do ar são elevados.

O que se passa com o transporte rodoviário e a poluição do ar nas cidades? 

O relatório destaca o impacto do transporte rodoviário na poluição do ar, assunto que tem estado nas notícias recentemente, no que respeita a várias cidades europeias, incluindo Paris e Londres.

O transporte rodoviário é o principal emissor de dióxido de azoto (NO2), que, por sua vez, é um dos principais poluentes que prejudicam a saúde. Este poluente é também um precursor de ozono e de partículas em suspensão que podem formar-se na atmosfera. O transporte rodoviário é também uma importante fonte de partículas primárias, não apenas devido à queima de combustível dos veículos como também pelo desgaste de pneus e travões, mas é, sobretudo, uma importante fonte de emissões de gases com efeito de estufa.

O transporte rodoviário também ocupa uma grande parte dos nossos espaços públicos (o congestionamento do tráfego é um exemplo) e ainda provoca ruído. Portanto, é um problema multidimensional.

Obviamente, não está em causa o papel importante que os transportes e a mobilidade desempenham na nossa vida quotidiana, mas a sua utilização pode ser mais sustentável. Constatamos que muitas cidades europeias já estão a adotar medidas, tentando criar sistemas de mobilidade mais sustentáveis. Medidas como taxas de congestionamento são soluções a curto prazo, por isso temos de pensar em alterações fundamentais e inovadoras a longo prazo para o nosso sistema de transportes, de modo a melhorar o nosso bem-estar geral.

O relatório também chama a atenção para o problema das emissões dos edifícios residenciais e comerciais. Qual é a dimensão deste problema? 

No que respeita aos fornos e lareiras a lenha, é um problema maior do que as pessoas possam pensar, particularmente no inverno. Muitas pessoas, nomeadamente no leste e no norte da Europa, acendem os seus fornos ou lareiras a lenha, que emitem uma grande quantidade de PM2.5. A queima de combustíveis de todos os tipos para o aquecimento de edifícios de habitação, comerciais e outros edifícios institucionais é, atualmente, o maior emissor de PM2.5. A totalidade do setor emite mais de metade do total de PM2.5 a nível europeu.

Outro problema no inverno pode ser o facto de, em condições meteorológicas calmas, a maioria dessas emissões tenderem a entrar em suspensão e permanecer próximo do solo devido à inversão térmica. Nessas condições, o ar mais frio permanece nas camadas mais baixas da atmosfera. O ar mais frio, que é mais espesso, impede a mistura e dispersão das emissões para as camadas superiores da atmosfera, pelo que a poluição se mantém próxima do solo.

O que está a AEA a fazer para melhorar a qualidade do ar na Europa?

Uma das maiores contribuições da AEA é fornecer o conhecimento e os dados necessários para ajudar os decisores políticos a tomarem decisões mais bem informadas em matéria de qualidade do ar. O nosso trabalho também ajuda a sensibilizar a opinião pública para o problema, o que é igualmente importante.

Recolhemos dados oficiais de países europeus sobre a poluição do ar, que depois utilizamos para realizar as nossas avaliações regulares da qualidade do ar, através de relatórios e indicadores. Também partilhamos os nossos dados sobre a poluição do ar com muitas outras partes interessadas, incluindo o público em geral, autoridades nacionais e regionais e o programa Copernicus de observação por satélite da UE. Participamos regularmente em seminários, conferências e reuniões em toda a Europa e a nível internacional para partilhar e discutir o problema e as nossas conclusões, o que contribui para incentivar ações dos decisores políticos. A poluição do ar está associada a uma vasta gama de domínios políticos, pelo que uma das nossas prioridades consiste em promover políticas e medidas intersetoriais e integradas.

Estão a ser utilizadas novas tecnologias para melhorar a monitorização da poluição do ar?

A grande maioria dos nossos dados é recolhida através de estações fixas de monitorização da qualidade do ar, cujo funcionamento é da responsabilidade das autoridades nacionais e locais nos nossos Estados-Membros. No entanto, também estamos a ponderar a utilização de outras tecnologias, como a recolha de dados através de satélites no âmbito do programa Copernicus da UE. Esta ideia é relativamente nova. A AEA colabora com os serviços atmosféricos do programa Copernicus e, na equipa de qualidade do ar da AEA, também utilizamos alguns destes dados no nosso trabalho. Através da combinação de modelização com as informações provenientes dos satélites, podemos obter uma melhor distribuição espacial das concentrações de poluentes. Assim, em vez de obtermos dados com uma determinada periodicidade de apenas algumas estações de medição, podemos obter uma perspetiva muito mais abrangente. Mas é essencial confirmar os resultados dos modelos com observações de terreno, e é neste ponto que os dados que a AEA recebe dos países europeus são fundamentais.

Também começamos a receber dados obtidos através da monitorização da poluição do ar no terreno, com recurso a sensores, realizada por iniciativa de cidadãos. Trata-se de uma nova fonte de informação, mas a precisão desses dispositivos ainda tem de ser melhorada. Ainda não são totalmente fiáveis, mas é uma tecnologia emergente e uma excelente forma de sensibilizar os cidadãos e promover a participação da comunidade na resolução dos problemas da poluição do ar. Em algum momento, esta tecnologia também poderá ser uma boa fonte complementar de informação.

 

Alberto González Ortiz

Entrevista publicada no boletim informativo n.º 04/2016 da AEA, de dezembro de 2016

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